Skip to main content

Parte I: Do Hype à Ciência – Uma viagem fascinante ao seu potencial médico-estético

Os exossomas são um dos mais recentes hypes das redes sociais, no que respeita aos cuidados estéticos. Vamos analisar de que tanto se fala e se a fama de que gozam neste momento é, realmente, merecida?

A minha recomendação é que leia este artigo de mente aberta. E se os exossomas são um dos termos mais falados e pesquisados nas redes sociais, também é verdade que são um dos tópicos mais controversos, com a maioria dos especialistas a confirmar que ainda falta recolher mais conhecimento sobre este tecnologia.

Mas, o que são os exossomas?

São pequenas vesículas extracelulares, produzidas por diferentes tipos de células e que carregam no seu interior material como DNA, mRNA e proteínas. Estas vesículas são depois integradas por outras células, onde vão desencadear diferentes respostas fisiológicas. Acredita-se que a função dos exossomas é a comunicação, na medida em que transportam informação que permite às diferentes células do seu corpo comunicarem entre si, modulando a sua função.

A aplicabilidade dos exossomas está em estudo para diferentes áreas da medicina, desde a oncologia até ao desenvolvimento de novos meios de diagnóstico. Na estética médica está a ser avaliado o seu potencial regenerador e anti-inflamatório.

Os exossomas são uma área de investigação de elevado interesse. Importa analisar a evidência científica disponível para que pacientes e profissionais de saúde possam tomar decisões informadas, muito além do marketing. Por tudo isto, entrevistamos um expert na análise e seleção de produtos utilizados em procedimentos médicos estéticos, José Rui Peixoto, Farmacêutico e Director Comercial da MedBeat.

Entrevista a um expert em dispositivos e medicamentos usados em estética: José Rui Peixoto, Farmacêutico e Diretor Comercial MedBeat

Nota prévia do entrevistado:

“Declaração de Interesses: Apesar de tentar responder a estas perguntas com o maior rigor científico e imparcialidade, não posso deixar de fazer uma prévia declaração de interesses, já que estes poderão enviesar, natural e inadvertidamente, as minhas respostas: sou gestor de uma empresa que representa e introduz no mercado nacional um dos produtos aprovados com exossomas.”

Quais as indicações para os exossomas em tratamentos médicos estéticos?

JRP: Não se poderão chamar indicações para tratamentos médicos, já que não há, à data, qualquer produto aprovado e disponível no mercado europeu com suporte documental e clínico que permita classificar de indicação médica, todavia distinguem-se quatro indicações fundamentais de uso, enquanto produtos cosméticos:

  • Promoção capilar;
  • Rejuvenescimento cutâneo;
  • Regulação de pigmentação ou mancha cutânea;
  • Melhoria de cicatrização.

Os exossomas podem ser bioestimuladores de colagénio? Quais os benefícios esperados na melhoria da pele ou cabelo?

JRP: Sim, alguns estudos e artigos revelam que os exossomas poderão melhorar a função dos queratinócitos e fibroblastos, aumentando a síntese de colagénio e elastina, promovendo, assim, a capacidade regenerativa e restauradora do antienvelhecimento da pele. No cabelo, discute-se e parece evidenciar-se que os exossomas induzem e prolongam significativamente a fase anágena, resultando numa promoção capilar, bem como no aumento dos níveis de β-catenina, que levam ao aumento do crescimento do cabelo.

Como funcionam (mecanismo de ação) os exossomas numa perspetiva anti-aging e de melhoria da qualidade da pele?

JRP: Será relevante começar por explicar que os exossomas são pequenas vesículas, com membrana de dupla camada fosfolípidica, secretadas por células, que transportam várias biomoléculas, incluindo proteínas, ácidos nucléicos e lípidos, com a capacidade de comunicar com outras células. Esta capacidade maior de veicular e mediar respostas celulares mais eficientemente parece ser o aspeto diferenciador dos exossomas e a razão pela qual se crê que estes desempenharão um papel muito relevante em diferentes áreas médicas, incluindo na medicina da longevidade, mas também no anti-aging, cirurgia plástica e dermatologia.

Atualmente, de que forma são administrados os exossomas?

JRP: Resposta fácil e direta: apenas está aprovada a administração tópica de produtos que contenham exossomas, podendo, no entanto, ser utilizados dispositivos, como dispositivos de microagulhamento, desde que não ultrapassem a barreira epidérmica da pele. A administração de qualquer um destes produtos por outra via não está aprovada e é considerada off-label, sendo de exclusiva responsabilidade do clínico prescritor e/ou responsável pelo tratamento.

Como são obtidos (quais as possíveis origens) dos exossomas?

JRP: Este é um aspeto muito relevante, do ponto de vista ético e regulamentar. Os exossomas poderão ser extraídos das mais variadas fontes e origens, sendo tal obviamente impactante no potencial do produto. Existem diferentes empresas que desenvolveram processos de isolamento e purificação de exossomas e que exploraram diferentes formulações para a comercialização e introdução no mercado.

A mais falada, e totalmente proibida, é a origem humana. Qualquer utilização de células e produtos celulares humanos heterólogos (ou não autólogos) é liminarmente proibida, exceptuando-se, neste caso, o sangue e o transplante de orgãos, obviamente muito regulados e fiscalizados.

Entre as restantes origens distinguem-se as de origem vegetal e as de origem animal.

Nomeio as três origens mais conhecidas:

  • Rosa Damascena (vegetal);
  • Colostro Bovino (animal);
  • Esperma de Salmão (animal).

Se, na origem vegetal será relevante alertar para a ausência de fatores de crescimento, que desempenharão um papel muito relevante naquilo que é o potencial efeito de utilização de exossomas, na origem animal é importante ressalvar a importância do processo de extração.

Em Portugal e na Europa, que tipo de exossomas podem ser usados e quais as vias de administração autorizadas pelas entidades competentes? Que tipo de autorização temos neste momento para o seu uso? Trata-se de um dispositivo médico?

JRP: Em Portugal, como em toda a Europa, o tema é “quente”. O interesse comercial e o fato de se falar tanto sobre exossomas (no IMCAS contei 55 palestras que incluíam o tema) faz com que existam produtos a serem comercializados que são de utilização proibida, como é o caso dos produtos com exossomas isolados de origem humana. Da mesma forma, faz com que haja múltiplos produtos sem qualquer base científica e com pouca qualidade de fabrico. Já assisti, inclusivamente, à promoção de uns exossomas de origem sintética, seja lá o que isso fôr!

Os produtos disponíveis no mercado português só podem ter a classificação de cosméticos, com via de administração tópica. Há, no entanto, produtos no mercado português que nem este registo, enquanto cosmético, têm, sendo comercializados de uma forma totalmente ilegal e perigosa.

Qual a sua avaliação sobre a eficácia e segurança dos exossomas que temos disponíveis?

JRP: Estamos num momento muito particular e, não querendo ser alarmista, perigoso. Há pouca evidência científica, tanto no que diz respeito à eficácia como à segurança. E há, ao mesmo tempo, um grande interesse e uma “moda” que gera muito interesse comercial. Interesse comercial que fez explodir o número de produtos no mercado, alguns sem qualquer base ou fundamento científico, outros com possíveis riscos de segurança e eticamente reprováveis, como os exossomas de origem humana.

A minha avaliação é de que o critério e a exigência devem prevalecer e que não se deve embarcar em entusiasmos desmedidos, nem em modas. Os exossomas estão disponíveis, mas há um longo caminho a percorrer.

Porque é que ainda não temos exossomas com aprovação para uso injetável?

JRP: Porque, felizmente, os produtos injetáveis, quer enquanto medicamentos, quer enquanto dispositivos médicos, para serem aprovados, necessitam de demonstrar, cabalmente, a sua eficácia, qualidade e segurança perante as entidades licenciadoras. Até à data, nenhum produto reuniu documentação que satisfaça estas três condições.

A tecnologia dos exossomas está em evolução e diariamente são publicadas novas descobertas. Na sua opinião que papel poderão ter os exossomas no futuro?

JRP: Uma rápida pesquisa no PubMed é elucidativa: a publicação de novos artigos sobre exossomas teve um crescimento exponencial. Em 2023, nas mais variadas áreas médicas, foram publicados mais de 5.000 artigos científicos. O interesse da comunidade científica, e médica em particular, é enorme e isso é demonstrativo do potencial da tecnologia. Há, no entanto, um longo caminho a percorrer. Os resultados clínicos são entusiasmantes, mas será necessário demonstrar, com ensaios clínicos cegos e randomizados, cientificamente as evidências.

Os grandes “trends” estéticos usualmente são acompanhados de um lado negro. De outros países chegam relatos de procedimentos com exossomas realizados na clandestinidade, como por exemplo injeção intra venosa ou exossomas com origem no mercado negro. Quais os maiores riscos de uma utilização indevida de exossomas?

JRP: A segurança na utilização de qualquer terapia celular é sempre um tema. Os riscos associados, em particular no longo-prazo, são difíceis de aferir. Muito se fala na questão dos marcadores e nos triggers oncológicos, razões maiores para a proibição efetiva de produtos com origem humana. Não são conhecidos, no entanto e à data, quaisquer dados que associem a riscos a utilização do exossomas (dentro das condições atualmente aprovadas).

Como farmacêutico responsável pela seleção e entrega de produtos a tantas clínicas do nosso país, que conselho daria a:

– Profissionais de saúde que realizam procedimentos estéticos para escolherem produtos com exossomas?

JRP: Os produtos não são todos iguais e a tecnologia é cara. Não embarque em entusiasmos nem em modas. Só uma escolha consciente e informada garante melhores resultados e evita desilusões e problemas futuros.

– Pacientes que procuram tratamento com exossomas?

JRP: Temos recebido esse feedback de algumas clínicas com que trabalhamos: já há pacientes que solicitam tratamentos com exossomas. É demonstrativo de que há um hype acerca do tema e que o entusiasmo extravasa a comunidade médica. Aos pacientes, o maior conselho é o da exigência e confiança: mais do que um produto ou tratamento, o conselho de que seja particularmente exigente na escolha do melhor profissional, que confie nas soluções e na abordagem que este defina e que a integração de exossomas aconteça apenas se essa for a melhor solução para as suas necessidades.

Também a indústria cosmética não ficou fora deste movimento e várias marcas já estão a promover os seus produtos com exossomas. Neste sentido, convido-a(o) a ler o artigo Explorando o intrigante Mundo dos Exossomas na estética médica (Parte II), que inclui a entrevista a uma das melhores especialistas em cosmética da atualidade, a Marta Ferreira, Farmacêutica, autora do Blog “A pele que habito” e autora do livro “O Livro da Pele”.

Até breve!

Sempre consigo!


Subscreva a nossa newsletter

A sua subscrição foi efetuada com sucesso!

Pin It on Pinterest

Partilhar